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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Aqui (Por Ti)


Aqui,
onde o infinito
encontra o deserto,
a vida torna-se um mito,
um grito aflito
e o tempo incerto,
de tão certo o mundo parar.

Lembro momentos,
fragmentos de ser.
Tantos tempos que juro
não ter.
De quem são?
Quem és?

Corre a água
de volta à foz
como foge a vida
para longe de nós,
tão sós.
Tão sem ser.

Onde estás?

Não sei de ti,
nem o quanto vivi
assim.
Não me encontro a mim,
nem à resposta no fim
aqui.

Será por ti?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Mensagem


As coisas que acontecem,
só porque assim é.
Só porque tem que ser
doa a quem doer.
A cabeça não tem juízo,
não pensa no prejuízo
e o outro, claro
o outro é que paga.
Sempre a mesma saga!
É sempre o mesmo doer,
não queiras saber
não te vás importunar.
Era de esperar
que algo acontecesse,
mas se te desses a pensar,
no que estavas a fazer
até poderias alcançar
quem sairia a perder.
E agora?
Quem te salva nesta hora?
Não contes comigo.
Até sou um bom amigo,
mas não alinho nesta história.
Se tiveres boa memória,
saberás porque assim é,
se fosse de boa fé
aguentavas até ao fim.
Se nunca precisaste de mim,
não vais precisar agora.
Mas quem te salva nesta hora?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Ser Humano


Ser,

que é ser humano
embuste profano
da verdadeira atitute,
da plenitude de se ser.

Que negro é ser,
sendo-se humano
amigo solidário
sentimental mercenário
da razão.
Sem coração, sem saída,
sem vida.
Vegetando à deriva,
procura amor
dando rancor, guerra
mal.
Sem sal, sem tempero
deseja calor,
confunde tremor com anseio,
sem receio, sem ai.
Qual mãe, qual pai
não ama ninguém,
inveja e desdém.

Se isto é ser,
sendo-se assim
é melhor por um fim:
antes não ser
que ser mais um.
Um por um, ão de ceder
quebrando, por não torcer,
para continuar a ser
nenhum.

domingo, 26 de outubro de 2008

Foi


Já não dá
o tempo já não volta
o mundo é outro
e está noutra rota.
Vão-se os pés
vêm novas marés
que apagam as provas
Todos crescemos
e a terra muda
a evolução é absurda
Tudo se vai,
e a história se esvai
entre as gotas da chuva.
Já não conheço ninguém
muda-se à toa,
mas não sinto desdém,
embora me doa...

mas um dia passa.

sábado, 25 de outubro de 2008

Resta-me a Quadra


Busco-me em palavras
sondo-me em talento,
Em cada rima
procurando um alento.

Persigo a loucura
em cada oração
Na busca de uma cura
para a solidão

Será que sou eu?
Será que sei quem sou?
É problema meu
e sou eu que não me dou?

P'la certa é a loucura
que às tantas me acercou
Sina que há tanto dura
e por fim lá me ganhou

Resta-me a quadra
que nunca me abandona
Como a boa Enamorada
que sempre a casa torna.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Egocentro

Existe um lugar
perdido do mundo
escondido bem fundo
Onde me podes encontrar

Aqui tudo é vazio e ausente,
não se encontra o passado
não se olha ao presente
nem se vislumbra esperança
no futuro emergente

Não existe acção
onde tudo é negação

Centro de forças
no centro de mim
Onde tudo começa
e encontra o seu fim

Acode, desperta,
aperta e explode
Agudiza, torneia
nauseia e suaviza
Gira e estontece
e nada acontece.
Não vale, nem merece

Se me vens procurar
entende o que sou
vê o que mudou
E conhece o lugar

Se me queres conhecer
tens de entender
onde eu sou
e porque não vou
daqui.

Se me ousas buscar
perdes o momento
e consomes o alento
e o destino é ficar.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Sinto

sinto-me frágil,
sinto-me triste,
sinto-me sozinho,
sinto-me inútil,
sinto-me incapaz,
sinto-me fraco,
sinto-me frouxo,
sinto-me pressionado,
sinto-me angustiado e
sinto-me perdido.
É todo este sentimento sentido,
vivendo-o por viver e
viver sem ter vivido.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Depois (do Fim)

Afasta-te!
Deixa-me viver.
Quero sentir quem sou
ver o mundo, perceber o que sobrou.
Já não há nada a dizer,
não tens o que temer
e as palavras já não trazem,
nem podem levar,
não há por onde agarrar
ou algo a tentar.
Experimentei tudo
e aguardei mudo
o gesto sorrir.
Que nunca chegaria a vir.
Espalho ao vento
os retalhos de mim,
as memorias do fim
que insistem ficar.
Eu prometo mudar.


quinta-feira, 28 de junho de 2007

Masoquismo Consciente

Olá.
Estás ai?
Consegues ouvir-me pedir por mais?
Sentes o coração explodir num sufoco,
num abraço de despego material,
na recusa do amor carnal,
implorar por calor?
Vês a chaga que me arde no peito,
essa recusa de respeito
por mim, para mim, todos os dias dessa vida.
Assim, considero-me delirar
neste estado imprudente
de um Masoquismo consciente
onde me penso encontrar.
Vendo tudo se retorcer,
num aperto de doer e numa duvida de ilusão.
Nestes momentos de solidão,
onde me ponho a pensar
e que me fazem recordar
que deveria viver...

Por todos e não por nós,
entre todos estamos sós,
quando apenas os outros
são a razão, da nossa acção,
e o tema da nossa preocupação.

Neste disco meio louco,
onde só tocam temas que queremos ouvir
acabamos a repetir os mesmos erros
e a cair nos mesmo enganos que jurámos extinguir.

Na novela de Masoch
encontro a minha dama,
mulher que me chama para a trama seguir.
Nesta loucura em que me encontro
acredito ouvi-la imperar
e em suas peles ordenar, que faça o que manda.
Sigo as ordens em diante e cumpro expectante
de uma recompensa singular.
Pobre bicho sou, que a tal alucinação me dou
e em que quero acreditar.
Deveria suspeitar
que como escravo de nascença
desta vida de descrença não me poderei soltar.

Sigo acorrentado, de coração amordaçado
mais uma ordem qualquer.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Anunciação

Mil e uma vozes me calam
Mil e um sussurros me guiam
Não há estrelas no meu norte,
nem trevos, nem figas, nem sorte.

Na treva de um coração
que não ousa sentir
há mil e um gritos
prestes a explodir

Às escuras, na noite
ouço o céu:
a lua que não se vê
e a vida que não se tem
os passos que não se dão
sem saber bem porquê.

Num lago estagnado
Mil e uma pedras se arremessam
Mil e uma ondas se agitam
e vozes que gritam
e apelam à libertação.
Um anjo da anunciação
se revela a mostrar o caminho,
estando eu tão sozinho
como o poderia escutar?

domingo, 22 de abril de 2007

Sem Título

Deste-me tanto
e eu fugia do toque
como quem foge de mim.

Na descoberta das raízes divinas
fui mais que rei,
mais que eu
fui alguém que não deu

No desabafo agoniante e profundo
choro alguém que nunca soube quem foi
Alguém que me fez mais do que prometeu
Deu por dentro e por fora
construiu e não recebeu.

Na minha alcova de ritos passados
lembro um mar de noites vividas
borgas bem passadas
festas merecidas
mas sem espaço para mais que eu

Nestes retratos de nós
vejo-me sozinho e lembro-me de ti
Quem eras no meio de mim?
Lembram-me um par de perguntas
esquecidas na minha gaveta.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Sem Título

Não me apetece rimar.
Sinto antes a fúria da incompreensão
crescer dentro de mim.
O calor azedo de nada e o acre
da revolta que me preenche.
Porque? As ruas desertas e
um murmúrio de silêncio.
É aqui que uma confusão se instala
e ouso fugir. Corro em pensamento
e vejo o asfalto rolar, os traços
intermitentes como o desejo passam
loucos como eu e se unem
numa linha que separa a verdade da ficção
e a mim do mundo.
No meu mundo não há luz.
Guio-me pelo vibrar das cordas
num grito choroso e demorado
que me levam a qualquer lado.
Nesse lado não há solo e caio.
A gravidade suga-me para o interior de nada.
Ouso cair, eterno e trôpego.
Não me agarro a mim,
não tenho onde me agarrar.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Confusão

O silêncio é ruidoso,
toldam-se os sentidos
imersos na longínqua recordação
mais recente de terem sentido.
Que sentido?
O estímulo fisiológico do ser
que nada tem a sentir,
apenas servir.
Servir de caos,
ajudar na entropia central.
Confissão que algo vai mal.
Servir ao próximo, dar prazer
elevar o ser, o ego.
Passado o instante que fica?
A amalgama quente e abrupta
daquilo que queremos ter
ou a recordação amarga
que tudo o que foi, não volta a ser.

É este o nosso universo,
aqui residimos, insistimos ficar,
embora querendo mudar,
não há para onde ir, é este o lugar.


quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Tanto Silêncio

Tanto Silêncio
É tudo o que encontro no fundo
Tudo o que se esconde do mundo
E se cala em mim.
Silêncio,
Quando tanto há a dizer,
Expressão máxima da dor
E miséria do ser:
O Silêncio.
Gritas calado,
Os silêncios que te vão na alma
Manténs fechado
Toda a confusão que te chama.
E sentes Silêncio
Quando te olham e perguntam o quê?
Respiras Silêncio
Quando te fechas e pensas porquê?
E sufocas em Silêncio
Quando percebes porquê.
Porque não percebes,
…tanto Silêncio.
Todos te falam
E percebes silêncio
E quando falas? Nem falas
É silêncio.

(imagem: Quadro de Luca Curci - Caronte)


terça-feira, 31 de outubro de 2006

Depressão

Três sílabas de expressão
traduzem todo o sentido,
demonstram a confusão.

A mudança repentina do estar
e a perda da força de lutar
são em mim tão comuns
como para ti alguns
dos ritos humanos de amar.

A falta de exactidão
no entendimento do que sinto
e os silêncios na expressão
mostram que te minto.

Calo o que digo
e o que calo quero falar,
Abafo um pedido
morto por se soltar

Sorrio para ti
quando o choro dentro de mim
é difícil suportar.

É esta a depressão
que envolve o meu peito.
Todos os mistérios do coração
com que acordo e me deito.

segunda-feira, 17 de março de 2003

À Consciência


Que som é este que me envolve?
Suspira, convence, abraça,
morde a alma em doces lamúrias.
O som do silêncio convulso que me busca
que me sente e puxa, ele sabe que é ela...
É ela que eu busco.

A luz,
A suave luz magoa, fere o coração,
dói na alma que não a vê, não a sente
No fundo não há luz, esconde-se de mim
desta existência, da insensatez, da irreflexão.
Busco a bruma, a fuga,
a esquina daquela que me viu nascer,
que me há de levar.

Quando a razão escasseia,
os sentidos se toldam,
perco o teu leve perfume,
oh vida que me guiaste,
que me trouxeste até aqui!
Digo, para quê?
Será odiando que me amas?
O teu cheiro doce me enjoa, me enlouquece
de ti fujo para os braços dela

Lembro com saudade o gostoso sabor,
daqueles momentos que me proporcionas-te...
do amor, do prazer, da dor,
da nostalgia de quando olhava para ti
amiga, rival, assassina,
vida que me mataste, não por fora, não
não o cristal, o vidro, não o trapo velho
que me cobre, me disfarça, me amordaça,
me prende aqui, não ali, não lá onde pertenço
mas alma que embrutece, que sucumbe à verdade,
à realidade, ao teu mundo de hipocrisia, ao teu mundo,
mundo do homem parasita, explorador, escravizador,
ao mundo do homem que nada é, apenas dor.

Minha alma aqui se rebaixa a ti, fraca vassala,
rija argila, cozida por ti, pelo teu azedo, pelo teu
ácido, que corrói, que desfaz, que mata!
Já não sinto nem o azedo nem o doce, nem o sal
que antes me temperara a vida, que me amornava,
parto agora para te deixar...

E neste instante
que o silêncio constante me acomoda,
os olhos se fecham
e a luz me tapa, já não te sinto...
Será que fugiste reles cobarde?
Abandonas à sorte criação tua, vontade alheia...
Empurras-me para o exílio, para não de ti falar...
não te acusar,
aldrabona disfarçada de humilde aliciante!
Não te quero! Não te abraçarei, nunca mais,
Renego-te, e à tua suave pele, carapaça de mentiras,
De injúrias, de enganos, não sentirei jamais.

Parto, triste mas confiante
que assim será melhor...
Deixo-te assim, a ti e a todos eles, pois...
teus escravos como eu, mas a eles não consomes tu!
Não deixarei, donde estarei, que o faças,
vida maldita,
Parto...